(...)
Daí que, antes de prosseguir, considere imprescindível definir, brevemente, o tipo de avaliação a que me refiro nestas páginas:
a. Uma avaliação contextualizada.
Isto é. que tenha em conta o quadro de referência (tanto diacrónico como sincrónico) em que é realizada a experiência, a dimensão da organização. a peculiar configuração psicossocial que a define, a idiossincrasia da sua cultura, o meio envolvente, a origem dos seus protagonistas. o momento em que se faz a análise... Não existe, pois, uma única avaliação para todos os casos.
b. Que tem em conta os processos e não apenas os resultados.
O que quer dizer que se realiza durante um período relativamente alargado, e não nos momentos considerados terminais. que recorre a instrumentos capazes de levar à compreensão da dinâmica processual. e que não atende, apenas. a dados relativos ao rendimento escolar dos alunos, para emitir um juízo de valor sobre a actividade desenvolvida, mas que tem em consideração elementos presentes no acontecer da acção, na configuração dos diversos cenários, e na natureza e intensidade das relações.
c. Que dá voz aos participantes em condições de liberdade.
Isto é, que cria condições favoráveis a que cada um emita a sua opinião, de forma a ninguém se sentir ameaçado por falar, ou por ter emitido determinado juízo de opinião. O que implica a garantia do anonimato das pessoas que prestam informações, e a confidencialidade das suas opiniões. A avaliação não é, pois, um juízo dos avaliadores sobre a qualidade da educação na escola, mas uma ocasião para que surjam as opiniões dos que trabalham nela, para que possam ter uma melhor compreensão daquilo que fazem. É imprescindível. pois, captar o significado que a acção tem para os que a protagonizam. Tal facto confere à avaliação um sentido democrático.
d. Que se preocupa com os valores educativos num duplo aspecto.
Em primeiro lugar, porque centra a sua atenção na captação do valor educativo dos programas, das relações, das actividades, etc. Em segundo lugar, porque a própria avaliação pretende ser educativa na sua forma de se desenvolver. Aprovar ou não aprovar pode ser considerado fundamental. adquirir ou não os conhecimentos pretendidos pode ser um aspecto a avaliar, mas não se pode ignorar tudo aquilo que se relaciona com a dimensão autenticamente educativa: a racionalidade das práticas, a justiça nas relações, a igualdade de direitos. a atenção à diversidade, os princípios inspiradores da aprendizagem, o currículo oculto da escola. a utilização do poder...
e. Que utiliza diversos métodos para reconstruir e analisar a realidade.
Um método apenas não permite captar com rigor o que sucede numa instituição tão complexa como é a escola. Se apenas nos limitarmos a observar o que sucede, sem dispor das opiniões de quem é observado, se apenas sondarmos as opiniões através dum questionário, sem comprovar, com a observação, a forma como se produzem os factos, se apenas analisarmos os documentos contendo o projecto de intervenção ou os relatórios das actividades, sem descobrirmos presencialmente na escola, se os projectos têm ou não consistência real... dificilmente poderemos emitir um juízo fundamentado sobre o valor da actividade educativa.
f. Que está comprometida com os valores da sociedade.
A avaliação não tem em conta, apenas, os valores da actividade que está a ser desenvolvida na escola mas dá, ainda, voz àqueles que nem sequer podem emitir opinião, por não terem acesso a esses serviços sociais, ou porque acabam por ser prejudicados pela forma como se organiza e desenvolve a actividade educativa num sentido mais amplo e social.
g. Que é uma avaliação em que ninguém tem o critério exclusivo ou privilegiado da interpretação correcta ou válida da realidade.
Nenhum grupo social. nenhuma pessoa, possui a faculdade ou atributo de emitir um juízo definitivo sobre a realidade. A participação de avaliadores externos não tem como função disponibilizar aos participantes a avaliação do que eles fazem de bem ou de mal, mas antes oferecer-lhe dados e critérios, a fim de que possam emitir um juízo mais fundamentado e adequado. uma vez que o seu comprometimento e os seus interesses em jogo podem criar dificuldades a uma análise desapaixonada.
h. Que não se deixa arrastar pela mística dos números.
É uma avaliação que não lida com valores numéricos, percentagens ou estatísticas, a não ser de uma forma secundária. quando permitem uma melhor compreensão. Não se baseia pois na medição. Os resultados não são apresentados através de dados numéricos.
i. Que utiliza uma linguagem simples.
É uma avaliação que recorre à linguagem utilizada pelos protagonistas. quando emitem os seus juízos sobre o valor educativo dos programas desenvolvidos na escola.
j. Que parte da iniciativa da escola.
É uma avaliação fruto da iniciativa interna da comunidade educativa, e que tem por finalidade última a compreensão e a melhoria das práticas educativas. Não se trata, pois, de uma imposição externa, de uma prescrição legal, ou de uma recomendação de agentes externos, mas de uma decisão autónoma, assumida e desenvolvida a partir do interior da própria comunidade educativa.
k. Que pretende modificar a prática.
É uma avaliação que tem como finalidade essencial a melhoria da prática educativa através da discussão, da compreensão e da tomada racional de decisões.
SANTOS GUERRA, Miguel Ángel, Como num Espelho – Avaliação qualitativa das escolas (Conferência proferida no Curso de Verão de 2001) in AZEVEDO, Joaquim (Org), (2002). AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS – Consensos e Divergências. Porto: ASA, pp. 11 a 31
Daí que, antes de prosseguir, considere imprescindível definir, brevemente, o tipo de avaliação a que me refiro nestas páginas:
a. Uma avaliação contextualizada.
Isto é. que tenha em conta o quadro de referência (tanto diacrónico como sincrónico) em que é realizada a experiência, a dimensão da organização. a peculiar configuração psicossocial que a define, a idiossincrasia da sua cultura, o meio envolvente, a origem dos seus protagonistas. o momento em que se faz a análise... Não existe, pois, uma única avaliação para todos os casos.
b. Que tem em conta os processos e não apenas os resultados.
O que quer dizer que se realiza durante um período relativamente alargado, e não nos momentos considerados terminais. que recorre a instrumentos capazes de levar à compreensão da dinâmica processual. e que não atende, apenas. a dados relativos ao rendimento escolar dos alunos, para emitir um juízo de valor sobre a actividade desenvolvida, mas que tem em consideração elementos presentes no acontecer da acção, na configuração dos diversos cenários, e na natureza e intensidade das relações.
c. Que dá voz aos participantes em condições de liberdade.
Isto é, que cria condições favoráveis a que cada um emita a sua opinião, de forma a ninguém se sentir ameaçado por falar, ou por ter emitido determinado juízo de opinião. O que implica a garantia do anonimato das pessoas que prestam informações, e a confidencialidade das suas opiniões. A avaliação não é, pois, um juízo dos avaliadores sobre a qualidade da educação na escola, mas uma ocasião para que surjam as opiniões dos que trabalham nela, para que possam ter uma melhor compreensão daquilo que fazem. É imprescindível. pois, captar o significado que a acção tem para os que a protagonizam. Tal facto confere à avaliação um sentido democrático.
d. Que se preocupa com os valores educativos num duplo aspecto.
Em primeiro lugar, porque centra a sua atenção na captação do valor educativo dos programas, das relações, das actividades, etc. Em segundo lugar, porque a própria avaliação pretende ser educativa na sua forma de se desenvolver. Aprovar ou não aprovar pode ser considerado fundamental. adquirir ou não os conhecimentos pretendidos pode ser um aspecto a avaliar, mas não se pode ignorar tudo aquilo que se relaciona com a dimensão autenticamente educativa: a racionalidade das práticas, a justiça nas relações, a igualdade de direitos. a atenção à diversidade, os princípios inspiradores da aprendizagem, o currículo oculto da escola. a utilização do poder...
e. Que utiliza diversos métodos para reconstruir e analisar a realidade.
Um método apenas não permite captar com rigor o que sucede numa instituição tão complexa como é a escola. Se apenas nos limitarmos a observar o que sucede, sem dispor das opiniões de quem é observado, se apenas sondarmos as opiniões através dum questionário, sem comprovar, com a observação, a forma como se produzem os factos, se apenas analisarmos os documentos contendo o projecto de intervenção ou os relatórios das actividades, sem descobrirmos presencialmente na escola, se os projectos têm ou não consistência real... dificilmente poderemos emitir um juízo fundamentado sobre o valor da actividade educativa.
f. Que está comprometida com os valores da sociedade.
A avaliação não tem em conta, apenas, os valores da actividade que está a ser desenvolvida na escola mas dá, ainda, voz àqueles que nem sequer podem emitir opinião, por não terem acesso a esses serviços sociais, ou porque acabam por ser prejudicados pela forma como se organiza e desenvolve a actividade educativa num sentido mais amplo e social.
g. Que é uma avaliação em que ninguém tem o critério exclusivo ou privilegiado da interpretação correcta ou válida da realidade.
Nenhum grupo social. nenhuma pessoa, possui a faculdade ou atributo de emitir um juízo definitivo sobre a realidade. A participação de avaliadores externos não tem como função disponibilizar aos participantes a avaliação do que eles fazem de bem ou de mal, mas antes oferecer-lhe dados e critérios, a fim de que possam emitir um juízo mais fundamentado e adequado. uma vez que o seu comprometimento e os seus interesses em jogo podem criar dificuldades a uma análise desapaixonada.
h. Que não se deixa arrastar pela mística dos números.
É uma avaliação que não lida com valores numéricos, percentagens ou estatísticas, a não ser de uma forma secundária. quando permitem uma melhor compreensão. Não se baseia pois na medição. Os resultados não são apresentados através de dados numéricos.
i. Que utiliza uma linguagem simples.
É uma avaliação que recorre à linguagem utilizada pelos protagonistas. quando emitem os seus juízos sobre o valor educativo dos programas desenvolvidos na escola.
j. Que parte da iniciativa da escola.
É uma avaliação fruto da iniciativa interna da comunidade educativa, e que tem por finalidade última a compreensão e a melhoria das práticas educativas. Não se trata, pois, de uma imposição externa, de uma prescrição legal, ou de uma recomendação de agentes externos, mas de uma decisão autónoma, assumida e desenvolvida a partir do interior da própria comunidade educativa.
k. Que pretende modificar a prática.
É uma avaliação que tem como finalidade essencial a melhoria da prática educativa através da discussão, da compreensão e da tomada racional de decisões.
SANTOS GUERRA, Miguel Ángel, Como num Espelho – Avaliação qualitativa das escolas (Conferência proferida no Curso de Verão de 2001) in AZEVEDO, Joaquim (Org), (2002). AVALIAÇÃO DAS ESCOLAS – Consensos e Divergências. Porto: ASA, pp. 11 a 31
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